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22/08/2006 23:27
EUTANÁSIA
Vicente nasceu pobre. Antes dos cinco anos,
já trabalhava na enxada. Não tinha roupa, agasalho, calçado,
muito menos remédio. Nunca soube o que era sábados, domingos
e feriados. Mas altivo e honrado. Previu que para ser alguém teria que buscar a cidade-grande. Com a roupa do corpo e uma chuteira emprestada, chegou à Capital num vagão
de última classe.
Passou fome. Não tinha onde dormir.
Com obstinação, agarrava-se a qualquer serviço.
Trabalhava dia e noite. Nunca teve um único dia de repouso. Econômico e prudente, economizava cada centavo.
Comprou o primeiro barraco. Casou-se.
Tiveram apenas um filho.
Multiplicou-se no trabalho.
Comprou outro barraco.
E mais outro.
E outro mais. Construiu uma casa, outra, mais outra e outras.
Sem um dia de descanso. Pouco a pouco, foi sendo conhecido
e respeitado pela comunidade.
Sua palavra tinha o lacre da verdade absoluta.
Conseguira ser alguém. Sempre digno. Sempre ereto.
Com mais de 80 anos, ainda trabalhava sem conhecer repouso,
lazer, facilidades. Já beirando os noventa,
assomou-lhe doenças. Desconectado com a vida pela esclerose múltipla e trombose mesentérica, foi internado com quadro terminal.
Falência de todos órgãos, menos o coração teimoso.
Entubado, no respirador e com o soro correndo direto,
jazia feito um trapo na cama.
Cada um dos três médicos teve sentença objetiva:
-É um quadro incompatível com a vida;
-Nada mais resta fazer. É o fim; -Teoricamente,
já está em óbito.
O filho, às 14 horas de um sábado, diante
da irreversibilidade e da agonia por tempo indefinido,
pediu aos doutores que os aparelhos fossem desligados.
Ouviu três sonoros
Não! e a saraivada de A ética não permite;
Seria uma desonra; e Isso eu não faço.
Uma semana se passou em profundo sofrimento.
Exatamente às 14 horas do outro sábado, quando, impotente,
o filho via seu pai morrer colocando fezes pela boca,
uma jovem médica que acorrera, afirmou
- Tenho condições de lhe dar algumas horas de vida...
O filho impediu. E a morte burocrática, enfim, completou-se.
Questões elementares surgiram: -É ético perpetuar
o sofrimento? -É moral impedir que a vida seja substituída
pela irrealidade? -É respeitoso impedir que um irreversível tenha morte respeitosa? -Para satisfazer ao egoísmo da família, é correto prolongar o sofrimento ou vida artificial?
-Temendo a censura pública, é moral ignorar a realidade
de um moribundo ? -Ética, Moral e Religião têm poder
sobre um cérebro que não mais exerce suas funções,
inclusive a de raciocinar? -Onde termina o certo
e começa o erro?
-Há dignidade em se permitir que um inconsciente
atinja estágio de degradação total?
O filho? Era eu.
Arnaldo Romano
enviada por Vivian
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